Todos os dias acordava na mesma hora. Fazia o mesmo ritual: levantava da cama, corria para o chuveiro e já saia penteando-se. Vestia apressadamente a roupa e com os sapatos ainda nas mãos ia comer alguma coisa. Não podia atrasar-se. Saia pela rua afora, pés enlouquecidamente apressados. Às vezes, lembrava-se de uma música que tinha ouvido dias antes e cantarolava. Ou então, punha-se a contar os quadrinhos das calçadas e quando chegava a uma calçada lisa pensava em outra coisa a fazer, ou não pensava em nada. Somente que não podia atrasar-se. Cada minuto era milimetricamente contado em seu trajeto rumo ao paraíso.
Caminhava por uma, duas, três ruas até virar a esquina e vê-la. Neste momento seus olhos flamejavam, seu coração disparava e esquecia-se até da melodia, pois, lá estava ela parada no ponto de ônibus.
Vestida com um jeans casual, o mesmo suéter vermelho de todos os dias sobre os ombros, abraçava seus livros.
Mas, como era linda, pensava ele.
Ela sempre estava lá. Todos os dias. Na mesma hora. E ele, apenas olhava-a. Contemplava-a.
Os olhos dela eram verdes, verdes como o mar em dia de sol. Seus cabelos escuros realçavam a brancura de sua pele.
Nunca se falavam.
O ônibus dela não atrasava. E como ele desejava que isso acontecesse. Ela subia os degraus e sentada junto à janela olhava para fora. Para ele.
Neste momento seus olhos cruzavam os dele. Olhos cor de esperança.
Eram apenas segundos, mas, pareciam a eternidade.
Ele já não suportava tanto desejo de dizer o quanto ela era bonita. Sonhava falar-lhe de seus olhos, de sua pele. Pensava cantar para ela. Afagar seus cabelos. Queria se oferecer para segurar os livros dela como forma de carinho. Por isso, decidiu que na próxima manhã sairia mais cedo de casa e a esperaria no ponto de ônibus. Encorajar-se-ia e falaria para ela tudo que pensara todos esses meses.
Nem dormiu à noite.
Na manhã seguinte saiu sem comer nada. O coração acelerado no peito. Correu pela rua como um louco desenfreado. Esbarrou em um velhinho que comprava jornais. Nada cantarolou. Não conseguia. Não havia tempo.
Virou a esquina e eis que avistou o ponto. Vazio. Respirou fundo. Atravessou a rua e pôs-se a esperar pela chegada dela. Agora calmo, sereno.
Um, dois, cinco, dez minutos passaram-se. Ele, agora irrequieto caminhava de um lado a outro da calçada. O ônibus chegou. Ele olhou para um lado e para outro. Ela não estava.
Ainda ficou no ponto por mais duas horas.
Pensou que algo poderia ter acontecido a ela. Pronto, era isso. Talvez tivesse adoecido. Voltaria no outro dia.
E voltou mais um dia, dois, três. Uma semana. Um mês.
Por mais de um ano ele foi ao encontro dela. A menina do suéter vermelho.
Antes tão perto... Agora tão longe...
caramba, que bonito!
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